quarta-feira, 24 de março de 2010

Os Sete Pecados Capitais - Avareza


"A avareza começa onde termina a pobreza." (Honoré de Balzac)


Nada define melhor a avareza do aquele par de meias que toda tia madrinha oferece no natal. Quanto mais rica for, pior será o presente, confirmado pela ABRINQ.

Avareza e pobreza não rimam no fluxo da vida. Moram em lugares distintos e é sabido que nem se conhecem. Seus irmãos siameses são a ganância e o egoísmo, não se separam nunca. Não conseguem viver um sem o outro.

O medo de perder o que possui e o desejo de reter para si aquilo que nem sequer precisa, caracterizam fielmente o avarento.

Muitas vezes, esse apego excessivo aos bens materiais, torna-se patológico, caso grave de distúrbio psiquiátrico, com poucas chances de cura e alto índice de hereditariedade. A boa notícia é que a avareza não é contagiosa. O avaro se recusa até a doar perdigotos infectados.

Outra coisa curiosa, é que a avareza está entre os mais inconfessáveis dos sete pecados capitais, só perdendo para inveja. Ninguém assume ser pão-duro, mesquinho, mão-de-vaca, unha-de-fome, sovina. Todos contribuem para alguma instituição carente e estendem a mão aos necessitados, pode perguntar.

Alguns afirmam que se tivessem dinheiro, se ganhassem na loteria, dividiriam seu prêmio com todos e ficam indignados por não receberem nenhuma contribuição daqueles que muito tem. Mas, basta girar a “roda da fortuna”, para notar que, de maneira inversa, o processo se repete.

Infelizmente, a avareza se revela na forma que mais lhe convém. Nem sempre é previsível. A sua manifestação mais cruel é feita através da retenção do amor, da negação em doar afeto. O avaro não gosta de dividir nada, prefere somar carências, acumular solidão... O medo de perder o impede de ter, de sentir, prevalece o vazio, a indiferença. O amor é generoso, amor egoísta não é amor, é paixão ou narcisismo.
 
Enquanto a generosidade divide seu pão, a avareza junta suas migalhas. Nisto consiste a miséria humana. Ninguém pode dar aquilo que não tem. Nem amor, nem pão.

segunda-feira, 22 de março de 2010

Os Sete Pecados Capitais - Luxúria

"Há pecados tão agradáveis que, se os confessasse,
cometia o pecado do orgulho.”


Quero deixar claro, que eu não acredito em pecado. O conceito religioso do pecado é inconcebível no meu universo pessoal.

Não posso crer que uma criancinha, até que seja batizada, seja impura apenas por ter nascido. O pecado original é uma das ideias mais manipuladoras e criativas que o ser humano já foi capaz de inventar. Tão humanamente impensável, que o homem tratou de conceder um caráter divino, outorgando a Deus sua autoria.

Porém, eu credito em causa e efeito. Mas qual é a graça? Tudo tão racional, tão previsível... Já o pecado não, o pecado tem seu próprio charme. Tem sabor.

Muito me agrada falar sobre o tema. Gosto da sonoridade da palavra, principalmente quando é dita pausadamente: p.e.c.a.d.o... Faz com que eu me lembre das tentações, de tudo que é irresistível. A própria palavra já é um convite ao pecado. Curioso isso.

Dos sete pecados capitais, a luxúria lidera o ranking na lista da predileção popular. Ela é definida como um desejo desmedido de se obter prazer sensual, levando o sujeito a agir de forma passional e impensada. Parece bom, não?

Deixar que a paixão nos domine e imaginar que aquele que desejamos seja totalmente dominado por ela, é praticamente o paraiso.

Perversões à parte, considerar a luxúria um pecado ou é hipocrisia, ou é autopunição.

Sem a luxúria o homem jamais se preocuparia em cuidar da sua aparência, em progredir. A busca pelo sucesso seria infundada, identificada apenas em casos de demência.

A paixão, ou mesmo a avidez, é o que nos motiva. Sem a luxúria a vida não teria tanta graça. E nem tantas crianças. O homem fracassaria na tediosa tarefa de procriar. O pavão não mais exibiria seu leque sedutor e o leão perderia sua juba. Bobagem tanta culpa, a própria natureza nos redime. O milagre do pecado é o prazer.

terça-feira, 16 de março de 2010

Os sete pecados capitais - A gula


      A gula, segundo o nosso Aurélio, é o apego excessivo a boas iguarias.  Ou seja, aquele desejo insaciável de possuir, de consumir o objeto de prazer. 
        A gula compete, sem dúvida, com a luxúria entre os mais irresistíveis dos sete pecados capitais. Aliás, estão estreitamente ligadas, se complementam.
        Por causa de uma simples maçã, e de uma serpente ardilosa, carregamos o pecado da gula. Somos Adão e Eva sem paraíso e nem precisamos mais de serpentes. Nos dias de hoje, a tentação só permanece naquilo que não conseguimos alcançar.
        Há pouco tempo, quando o romantismo era a máscara da cobiça, mulheres e homens  utilizavam os prazeres da gula com o propósito de conquistar e prender o seu amor. Veja bem, tudo começava com o jantar.  O predador fartava a moça de boa comida e de bom vinho. Saciada, a presa estaria menos resistente ao abate. 
        Por outro lado, a mulher sempre que convidava seu pretendente para uma visita, o enchia de guloseimas tentadoras, era uma verdadeira orgia gastronômica.  E o rapaz, acreditando que iria ser sempre assim, se apressava em pedi-la em casamento. 
        Porém, após anos de convivência, a gula costuma se desvencilhar da luxúria, retomando sua essência pura.
        O vinho do jantar romântico ou a champanhe das comemorações deram lugar a engradados de cerveja, acompanhados de futebol, amigos e quilos de picanhas mal passadas. 
        A mulher, cheia de carências, devora caixas de chocolates enquanto reclama do marido. Depois, faz da balança o seu atroz juiz  e da celulite,  sua punição. Mulher nenhuma se culpa pelo seu tempo de Eva, apenas tem saudade.   
        A gula, mesmo fora de moda, está mais autêntica, fiel aos seus princípios e para tanto, oficializou o domingo como o dia da ressaca e da comilança. E o casal de gordinhos, de tão fartos que estão, esquecem até mesmo de pecar...