quarta-feira, 15 de abril de 2009

É Bom Ter Cuidado ao Comprar Tomates

Wander era um cara estranho. Mariana também, mas nenhum dos dois sabia. Enquanto ela lia Dostoievski, ele assistia ao Tiririca na TV e ria de dar dó. Ela fazia de conta que não via.


Wander não era um cara mau. Aos finais de semana arranhava um violão, mas se negava a tocar, caso não lhe implorassem. Devia fazer bem para o seu ego, sabe se lá.


Era funcionário público, e como tal, odiava prestar serviço ao público. Porém, estava satisfeito com o emprego. Dava-lhe segurança. Para Wander, segurança era tudo, embora ele não soubesse o que na verdade isto significasse.


Dizia que gostava de filosofia e, no entanto para ele, Sócrates era apenas o jogador de futebol, irmão do Raí. Também dizia gostar de poesia, mas não as lia. E quando lia, não entendia. Era um tipo comum; enfim.


Mariana era uma mulher diferente. Nem melhor, nem pior, mas diferente. Deveria ter lá seus 42 anos, ao menos era o que aparentava. Era alegre e, ao mesmo tempo, comedida. Retribuía sorrisos, mas não os dava caso não fosse antes contemplada.


Tinha suas manias, escondidas para que não lhe dessem rótulos. Gostava de plantas, de cachorros e de gente, mas estava fechada em seu mundo. Wander nem reparava.

Estavam casados há 12 anos. E ele pegou o costume de chamá-la de “infeliz”, mesmo bem antes de ela ser. Talvez fosse bom pra ele, não se sabe.


_ Ô Infeliz, pega uma cerveja pra mim! _ E a infeliz pegava. Estava acostumada, a pobre.


Quando ele bebia, ficava pior. Havia sempre um palito entre os dentes pra mascar, enquanto uma voz sinuosa comandava suas vontades. Queria tudo, mas não dava nada.


A infeliz estava sempre à postos, respondendo aos anseios dele. Acreditava que sem Wander o mundo estaria vazio e não haveria nada.


Um dia... Quem diria! Como de costume, Mariana foi à feira , sempre se preocupando com os tomates... Wander odiava quando eles estavam moles e repugnava-os quando verdes. Os tomates eram a razão da gastrite de Mariana. Toda terça-feira o mesmo estresse...


Mas neste dia, entre um examinar de um tomate e outro, Mariana recebeu uma ajuda:


_ Pegue os firmes. Não importa a cor. Feche os olhos, apenas sinta. Escolha pelo tato, pelo instinto, serão os melhores, garanto.


Ela sorriu, encabulada e agradecida. E levou para casa a melhor safra de tomate possível. Wander nem percebeu.


Contudo, Mariana não pode esquecer aquele contato. Ah, o homem dos tomates! E sonhava. Sonhava baixinho pra que Wander não ouvisse.


Na próxima terça, a feira não mais lhe parecia um mercado de sacrifícios. Era uma promessa. Olhava tudo como nunca antes havia visto, sentia os temperos, confundia os cheiros com os sabores, imaginava raízes. Tocava.


Quieto, como se a esperasse, Lúcio estava lá, com uma sacolinha de laranjas, completando as cores e justificando os sentidos.


E Mariana... Ah, Mariana! Mariana nunca mais quis comprar tomates...


Lúcio era infeliz. Mariana era a infeliz. E juntos riram da infelicidade. Riram tanto que a tragédia virou comédia e, inevitavelmente, romance.

Mariana hoje mora com Lúcio. Não frequentam mais feiras. Lúcio nem liga pra tomates e adora o glamour com que Mariana abre a caixinha de Pomarolla. Mariana capricha. Todo mundo acha o máximo. Estão felizes, firmes.

E o Wander? Coitadinho, não sei dizer, ninguém nunca mais ouviu falar dele.

2 comentários:

  1. Augusto Pinheiro Machado16 de abril de 2009 16:41

    Cecilia, adorei suas crônicas. É delicioso ler o que escreve. Parece que conversa com o leitor. Uma conversa de alto nível, bem humorada e que faz pensar. Parabéns. Voltarei sempre. Beijos, Augusto

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  2. Adorei! O Wander é igualzinho ao marido da minha prima. kkkkkkkkkk

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