quinta-feira, 26 de março de 2009

Três Histórias e Um Enredo

As três amigas tinham dezoito anos quando se conheceram. Fefê era a mais descolada das três. Fazia sucesso por onde quer que passasse. Era falante, cheia de amigos e fazia o estilo hippie-chique, só para criar polêmica. Detestava frescuras, maquiagens, salto alto e meninas fantasiadas de rosa.

Trabalhava em uma locadora de vídeos (ainda não havia o DVD) e sempre levava um pornôzinho para as amigas – ainda virgens - começarem a entender o que era sexo. Frequentava um bar em Pinheiros chamado “Rei das Batidas”, lá ela era conhecida por todos. Tinha mesa cativa e o garçom sempre a favorecia com doses extras do coquetel “sex on the beach”, o seu preferido.

Maria era a mais comportada delas. Moça boa do interior. Tímida, gostava de ler e escrever, usava roupas sóbrias e não falava palavrão. Era o recato em pessoa. Frequentava livrarias e saraus e tinha uma vida familiar bastante intensa.

Paullete era centrada. Fazia o contraponto entre as duas. Aprontava, mas era discreta. Apenas sua risada denunciava tudo. Exercia uma liderança, era o centro das atenções. Cursava o primeiro ano de psicologia e gostava de frequentar bares de hotéis, destes em que se tomam um bom whisky e encontram homens engravatados fumando charutos. Sempre que via um citava Freud: “Às vezes um charuto é só um charuto”, dizia ela com olhar de desdém.

Foram amigas por muitos anos. Cada uma no seu estilo, mas cúmplices em amizade e apoio. Porém, o tempo passou, afastando as amigas e o destino por elas sonhado.

Fefê, como era de se esperar, correu mundo. Foi morar no exterior, com o propósito de estudar astrologia.

Maria voltou pra sua pacata vidinha do interior.

Paullete desistiu da psicologia. Mudou para Macacos, uma cidadezinha ao pé da serra e lá, bem no seu inconsciente, passava as noites questionando se a serra tem mesmo “pé”.

Um dia, anos após, nestes descaminhos da vida, as três se encontram em uma clínica de recuperação.

Fefê desenvolveu uma estranha obsessão por coisas de cor rosa. Sapato, jaqueta, carro, tudo tinha que ser cor-de-rosa. Outro problema era a maquiagem. Não vivia sem.

Paullete após anos bebendo whisky com guaraná, abandonou o guaraná e se entregou, definitivamente, ao whisky. Puro. Cowboy. Do café da manhã até a azeitona do jantar.

Já a Maria, coitada, entediada com a vida em sua pequena cidadezinha passou a consumir, diariamente, pacotes e pacotes de Marlboro. A fumaça do cigarro a fazia lembrar da poluição de São Paulo, tempo em que fora feliz.

Flagradas em atos ilícitos, foram expulsas da clínica. Maria comprava cigarros no mercado negro, Paullete fabricava Whisky caseiro com as sobras dos cereais do café da manhã e Fefê traficava pó de arroz.

Sem saber o que fazer, lá estavam as três, novamente, recomeçando a vida. Fefê sugeriu mudar. Vamos pro mundo, fazer o que nos der na telha, viajar, disse ela. Maria hesitou, mas sorriu e Paullete gargalhou como só ela sabe fazer.

Para onde iremos? Perguntou Paullete. Para Paris, Cherry, para Paris, respondeu Fefê.

E foram. Fefê, hoje conhecida como Mme Mary Ky, inaugurou um cabaré. Paullete é freqüentadora assídua e, entre outras coisas, diverte os homens com suas loucuras etílicas. Maria casou-se com François, um poeta boêmio, dono de uma tabacaria.

Quer saber? Estão felizes como nunca!

P.s. Qualquer semelhança com a realidade é mera coincidência.

10 comentários:

  1. Estou gargalhando entre lágrimas de emoção!Nem preciso dizer que AMEI!!!!!!!!!!!
    Éramos felizes... e ao reencontrá-las, voltei a ser feliz! Vocês são imprescindíveis.
    Obrigada de coração!
    Milhões de beijos

    ResponderExcluir
  2. Bom.. participei muito disto, e posso dizer que vc soube descrever integralmente tudo. Hoje, continuo cego como seu pai um dia disse que eu era, mas agora de amor por vocês. Foi excelente reencontrá-las.

    ResponderExcluir
  3. Fatos vividos, com tempêros de ficção e graça. Você é boa mesmo...rs. Adoro vc. Beijos.

    Jean.

    ResponderExcluir
  4. E lembrem-se: "quando a gente acorda de bom humor, é sinal de está em Paris."Murilo Mendes

    ResponderExcluir
  5. Divertido demais...estou até agora pensando em largar tudo, sair no mundo e terminar meu curso de astróloga, para poder prever o nosso destino...Acho que precisamos passar um tempo na India e depois de muita meditação, tenho certeza que vamos chegar a conclusão que purificação é para santos e almas evoluídas, nosso negócio mesmo é desfrutar dos nossos vícios e se divertir mesmo que seja considerado por alguns, pura libertinagem...

    ResponderExcluir
  6. Ah esqueci de comentar, o Marcel e o Jean foram trazidos pelos ventos de Paris, cherrie? Onde eles entram nesta crônica? Estou curiosa...

    ResponderExcluir
  7. Ah, a Maria não está fora da realidade, apenas sofre de transtorno de personalidade...você esqueceu de mencionar sobre as caracteristicas zodiacais dela...se precisar de ajuda, meu curso internacional de astróloga pode ser de grande valia, pois ela já desistiu do François e no Cabaré das grandes amigas, conheceu um novo amor também com nome francês, Se La Vie Cherrie!!!

    ResponderExcluir
  8. Pois é, eu não sofro de transtorno de personalidade, o meu transtorno é ter personalidade...
    François talvez não me entenda. Pierre, quem sabe?

    P.s. Marcel, 'bora com a gente!!! Você administrará e advogará para nós. R. Bentos será o responsável em ensinar os rapazes a dançar. O outro, chamado Gente, Sujeito, Pessoa, sei lá, cuidará de que nossos esforços produzam bons frutos. Fechamos! Já temos um administrador, um dançarino e um agrônomo, só falta alguém pra plantar a mandioca...Hehehe.
    Quem quiser que acumule duas funções.

    ResponderExcluir
  9. Amigos, amo vocês! Vamos arrumar as malas???

    ResponderExcluir
  10. A minha já tá pronta...tô levando cereais,e umas coisinhas mais....devo levar o go go boy????

    ResponderExcluir