“Quem come e bebe não conspira”
A empresa estava em pé de guerra. Intrigas, disputas, até ameaça saiu. Todo mundo se odiava. Um falava mal do outro e outro falava mal do um. Não sobrava ninguém.
Sueli, responsável pelo departamento de RH, propôs uma reunião. Convocou diretores, gerentes e secretários.
Paulo, gerente de produção, era bem apessoado, eloquente e exercia certa liderança, Sueli achou por bem pedir a ele que dissesse algumas palavras. Paulo endireitou a postura estufando o peito, limpou a garganta e fez seu discurso. Na verdade, um sermão. Precisamos nos unir, juntos seremos mais fortes, disse em tom eclesiástico. E encerrou com uma dinâmica de grupo aprendida em um curso em Porangaba, destas em que todo mundo se abraça no final. Foi um martírio para todos.
Sueli analisava-o. Considerava Paulo um tanto inexperiente para o cargo. Mas vale pela beleza, concluía.
Michelly, a contadora, olhava para o Paulo, despindo-o lentamente em pensamentos.
Jayme, sem milongas, já o imaginava nu. Calculava medidas, dimensões.
Carlos, fingindo fazer anotações, desenhava bolinhas em sua agenda.
Sr. Ribeiro, o diretor, julgava Paulo um incompetente. Vamos falir, pensava.
Dona Geni, a secretária sessentona, imaginava se ele traia a mulher.
Fausto olhava o relógio preocupado.
Reginaldo, subordinado de Paulo, lhe rogava praga. E Célia lixava as unhas.
Sueli tentou mais alguns recursos, mas não obteve sucesso.
Sr. Ribeiro achou por bem encerrar a reunião. Iremos analisar o assunto,estão dispensados, disse.
Michelly sugeriu um Happy Hour. Todos, menos dona Geni, aceitaram.
Sente-se aqui, disse Paulo a Reginaldo. Reginaldo, se sentindo valorizado, agradeceu.
Michelly pegou a cadeira central. Sr. Ribeiro ficou na cabeceira.
_Manda chope pra todo mundo, disse.
E o garçom trouxe chope, batatinhas, salaminhos... Todos bebem e comem. Estão felizes. Paulo conta uma piada, Michelly se mata de rir.
Carlos, já alterado, levanta e grita: Eu amo todos vocês!
Jayme, balançando as mãozinhas, declara: eu também, eu também!
A mulher de Fausto liga no seu celular. Ele desliga, que se dane, pensa.
Sueli confessa sua solidão, abraça Célia e Reginaldo, trazendo-os para perto do peito e chora emocionada.
Sr. Ribeiro, agora, Seu Riba, pede desculpas por algumas alterações de humor e com os olhos marejados declara que todos que estão ali são a sua verdadeira família.
Carlos meneou a cabeça, a empresa é a nossa vida, disse com a voz trêmula. Todos concordaram.
Ao final da noite, quem estava de carro ofereceu carona, os outros racharam um taxi.
No dia seguinte, o clima estava ótimo. Só Dona Geni continuava com aquela cara de fuinha amarrada. Estranhou o bom humor dos colegas. Só tem louco aqui, concluiu ela.
Mas... Antes mesmo do horário do almoço, Fausto, sem querer, deu um esbarrão em Jayme. Pediu desculpas e com uma risadinha sarcástica, falou:
_ Você ontem, heim, Jayme... Se revelou...
_Eu o quê? O quê?_ Disse nervoso, encarando o colega.
_Nem te conto...
Pronto! O mau humor se espalhou na velocidade da luz. E tudo voltou ao normal, para alívio de Dona Geni, que sempre detestou mudanças.
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