“A gente somos inúteis” (Ultraje a Rigor)
O homem é um ser inútil. Não é aproveitado na natureza, não serve pra nada, não presta.
Quebra a cadeia alimentar, apenas servindo de tira-gosto para seres ainda mais insignificantes: bactérias, vírus, células cancerígenas e, por fim, os vermes.
Já nasce chorando. Pelado, careca, sem dentes, com aquela cara de que ainda não está pronto. Passa meses e meses apenas dormindo, mamando, chorando e fazendo cocô. Quando muito, dá um sorrisinho para as tias velhas, que banguelas como ele, balbuciam alguma coisa imbecil.
Depois cresce. Cresce e chora. Tem ciúme da mãe, do pai, do irmãozinho mais novo, do mais velho e do colega que tira dez. Começa a competir e, daí para frente, não para mais.
Compete o tempo todo. Até o mais doce dos homens compete. No mundo há somente um espaço para no mínimo dois sujeitos, acredita ele.
Passa a vida competindo, compete até morrer. E quando morre, alguém continua a competir por ele. O caixão do infeliz tem que ser melhor do que o do amigo.
_Mogno ou cerejeira? Lápide de mármore, claro. Afinal, o que os Vieiras poderiam pensar?
Reparem se em todo planeta há uma criatura mais desnecessária do que o homem? É a mais desprezível das espécies, sem dúvida.
Tem uma existência medíocre. Necessita de terno, de gravata e de anel de formatura. Inventa coisas que não precisa e depois, por vontade própria, se torna escravo delas. Morre e mata por eletrodomésticos e máquinas de fazer preguiça, depois se entope de remédios pra curar a artrite, consequência de seu extremo sedentarismo.
É o único animal capaz de conceber o crediário. Adora um carnê. Sofre, mas adquire o mais novo modelo de qualquer trivialidade, sempre melhor ou maior do que a do seu vizinho, também medíocre como ele.
É o único ser que mata por vingança, por prazer. E é também o único que conhece o significado da sabedoria, mas não a usa senão para se sentir superior a qualquer outra criatura, mesmo que seja da sua própria espécie.
Tem fé, acredita que a alma é eterna. Talvez por isso dê mais valor à carne. A carne é finita, apodrece. É preciso urgência pra se amar a carne.
Acumula mais lixo do que prudência. Despeja as sobras das suas inutilidades no mar, no ar, no quintal do vizinho. Polui, destrói, faz guerra, mata e desmata.
Desperdiça o que pertence a todos. Apoderando-se da natureza. Lava o quintal todos os dias, milhões de litros d’água ralo abaixo. Limpa a casa pensando que purifica a alma. Acaba, apenas, por lavar as mãos.
Talvez a arte seja a única coisa que valha no homem. Mas nem todos a entendem...
É necessário que Deus remodele o barro e arrume outra costela. A humanidade deu errado. A raça humana é inviável e não funciona.
Passei para conhecer. E adorei o que li.
ResponderExcluirParabéns!
Genial! Estou impressionado com a qualidade literária e filosófica das suas crônicas.
ResponderExcluirParabéns!
Abraços, Claudia Gelleni