quarta-feira, 25 de março de 2009

Agenda dos Prazeres

Este ano terei uma agenda dupla, já resolvi. Comprei uma do jeito que queria, pequena, com as fases da lua, espaço para compromissos, aniversários e telefones. Funcional, do tipo que cabe na bolsa e onde quer que eu esteja ela está por perto, me lembrando de que tenho dentista na quarta-feira. Estava satisfeita.

Dois dias depois, uma amiga me presenteia com uma agenda linda, enorme, daquelas que dá dó escrever qualquer coisa. Agenda Poética é o nome dela. Imagina só se é viável: no dia 15 de janeiro tem um verso de Vinícius, mas neste mesmo dia preciso comprar veneno para baratas. Tal anotação seria um desaforo sem tamanho ao poetinha.

Há tempos cultuo a insônia, alimento-a escrevendo todas as noites as obrigações para o dia seguinte. Isto me faz perder o sono. Quando meu compromisso envolve médicos, dentistas ou montantes de dinheiro, meu sono desaparece por completo.

Resolvi, então, ter uma agenda dupla. Ou melhor, duas agendas. Uma para as chatices da vida, outra para os prazeres.

No final da tarde, bem antes do pijama, anoto, em minha pequena agenda, tudo que preciso fazer no dia seguinte e esqueço. Quando vou para cama levo a outra agenda. Lá escrevo tudo que gostaria de fazer, coisas difíceis ou banais, mas sempre prazerosas. Não me importo se não posso cumpri-las. Planejá-las me basta.

Está lá:
Dia 11 – nadar na cachoeira, jantar fora
Dia 12 - beijar na boca, show do Chico
Dia 13 – sessão da tarde com pipoca
Dia 14 - escrever poemas e amar
Dia 15 - comprar um livro novo, ligar para os amigos

Nunca escrevo nada aos finais de semana. Nestes dias eu estou sempre viajando. Não passo um sábado ou um domingo na cidade em que moro. Na minha agenda secreta estou sempre pelo mundo.

Segunda-feira é o único dia em que escrevo algo que pode ser entendido como compromisso, apenas para deixar registrada a aventura do final de semana. Está lá: baixar as fotos do Louvre, lavar o tênis que usei em Brotas, limpar o carro das areias de Parati, organizar os postais de Florença, temperar os queijos de Minas... E por aí vai.

Meus dias já estão preenchidos até o final de dezembro, mas não me canso.

E quando a vida está difícil, os amigos distantes, o tempo curto e o dinheiro escasso, eu abro minha agenda clandestina e vejo que dia 12 o Chico Buarque estará cantando “Eu Te Amo” para mim, só para mim.

Esqueço qualquer aborrecimento. Suspiro aliviada e durmo tranquila, sonhando em versos e acalentos de paz.

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