terça-feira, 2 de dezembro de 2008

Os Náufragos

A ventania se assemelhava ao sopro de um deus devastador, fazendo uivar coqueiros e calar animais.

Enroscados uns aos outros, sob a falsa proteção de uma árvore, estavam os três náufragos: Mauro Brando, Rosely Cristina e Clóvis Cardoso.
Eram eles os únicos sobreviventes do naufrágio do “Efigênio D”, um luxuoso navio que se destinava à Umbandia, costa oeste da África.

Cada um embarcara com um propósito diferente: Mauro brando, na verdade, Waldemauro Pereira dos Santos, um ator em pleno declínio físico e moral, 59 anos e 83 quilos distribuídos em 1, 67m de altura, fora convidado para fazer uma ponta em um filme, cujo cachê era bem menor do que suas despesas de viagem.

Há anos, Mauro bebia e jogava, perdendo quase toda a generosa herança que havia recebido. Era casado com uma ex-atriz de filme pornô, chamada Rosely Cristina.
Rosely Cristina era uma destas mulheres ecológicas, que se assemelhava a uma espécie de pássaro em extinção. Sua personalidade era fortíssima, mandava e desmandava em Waldemauro e o pobre fazia tudo por ela.

Clóvis Cardoso, 32 anos, magro como um relógio ao meio-dia e meia, professor de sociologia e como tal, míope de tudo. Durante a viagem vivia contando suas glórias e aventuras como caçador e expedicionário em selvas, florestas e desertos.

Os três náufragos não tinham a menor idéia de onde poderiam estar, já que o navio vagava a esmo por vários dias, desgovernado em meio à tempestade.
Noite se fez. Dormiram abraçados, exaustos.

O dia amanheceu negro, mas sem chuva. Rosely Cristina obrigou Waldemauro a sair em busca de água e comida. Não foi difícil, havia coqueiros por toda parte. E coco também foi o almoço e o jantar.

Clóvis não dissera nem uma palavra por todo o dia e a noite, mas Mauro e Rosely sentiam-se amparados apenas com a sua presença, confiavam em sua perícia.

Na manhã seguinte Rosely e Mauro acordaram com os berros de Clóvis. As cascas dos cocos atraíram centenas de formigas e muitas delas passeavam pelo corpo estreito de Clóvis. Desta forma os outros dois náufragos descobriram a fraude de Clovis. Como pode tão experiente explorador ter medo de formigas?
Clóvis chorando em convulsões confessou, enfim, que havia feito apenas um curso de sobrevivência na selva... Por correspondência.
Rosely Cristina gritava :
_ Covarde! Mentiroso!
Waldemauro consolava Clóvis:
_ Eu entendo, eu entendo, acontece...
Mas por dentro se contorcia de raiva, pensando na pesca e na caça que perdera.

Após se acalmarem, conversaram sobre iguarias sofisticadas, camas macias, ar refrigerado e cervejas geladas. Rosely os trouxe de volta à realidade, pensando em um modo de sobreviverem, de saírem dali. Mauro aventou a hipótese de haver alguma civilização por perto e serem salvos, mas Clóvis fez um longo relato sobre as tribos canibais, seus costumes e seus rituais. Neste momento escutaram ao longe o soar de tambores. Tum-tum, tum-tum, tum-tum...
Rosely imediatamente pôs-se a dançar, Mauro e Clóvis tentaram se esconder, mas como o som vinha de muito longe, logo se aquietaram.
Não estamos sós, concluíram. E adormeceram aflitos, após estabelecerem a divisão de tarefas para o dia seguinte. Waldemauro tentaria pescar o almoço, Clóvis construiria um abrigo e como os dois se acovardaram, Rosely iria procurar alguém e ir em busca de socorro.

O dia amanheceu. Waldemauro saiu e voltou todo orgulho com os dois siris que conseguira, Clóvis improvisara uma cabana estilo “forte-apache” americano. Rosely Cristina não voltou.

Waldemauro chorou por cinco dias seguidos. Depois se conformou com o fato de sua mulher ter virado refeição de canibal.

Dias e noites se passaram, nenhum dos dois tinha coragem suficiente de explorar a terra onde estavam. E toda noite eram atormentados pelo som dos tambores.

Viram passar, sem que soubessem, quase um ano até aparecer alguém.
_ E aí, mano? Tem fogo?
Clovis e mauro se olharam atônitos e catatônicos.
O garoto vira pra namorada e diz:
_ Estes aí estão doidões...
Clóvis se joga aos pés do menino e em prantos o bombardeia com perguntas:
_Quem é você? Por que fala a minha língua? Onde estamos?

_Tá louco, véio? Pirô? Que bagulho é este que tu usou?
O menino volta-se para a namorada e fala com um jeito desapontado:
_Vamo s’imbora daqui. Entramo numa roubada, me garantiram que esta praia era deserta e só tem maluco!

Waldemauro interrompeu o garoto e explicou o caso. O casal não acreditou, mas revelaram aos dois náufragos que estavam na praia do Coqueiral, Rio de janeiro, próximo a concentração da escola de samba “Cidade Maravilhosa”.

Tempos se passaram. Waldemauro desistiu da carreira de ator e agora se dedica a arte culinária. Clóvis escreveu um livro de ficção cujo título é: “Os Náufragos”. Rosely Cristina há dois anos é madrinha da bateria da “Cidade Maravilhosa”.

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