terça-feira, 16 de dezembro de 2008

Proibido Olhar Para o Céu

Na principal rua da cidade, um cidadão olha para o céu. O que tem por lá? Uma árvore de folhas miúdas, um edifício alto, um passarinho solitário e o que mais? Nada vejo.

Seu Alberto chega pra espiar. Também não vê nada de diferente. Seu Manoel, da padaria, aparece, cheirando a bolo. A moça que vende cartões da Zona Azul, esbaforida pergunta ao rapaz que observa o céu:

_ Aconteceu alguma coisa?

Ainda não sei, responde ele (o que matou foi este “ainda”).

Alguém vai se jogar? Perguntou Dona Amélia.

Está pegando fogo? Parece que está saindo fumaça do nono andar, arriscou o menino de bicicleta. Onde? Onde? Ouve-se o coro dos curiosos.

Pára mais gente. Dona Amélia liga pra polícia. Parece que alguém vai se jogar, diz ela ao delegado.

O pessoal da imprensa chega imediatamente. Meia hora depois aparece a polícia. Não tinha ninguém disponível na delegacia... É sempre assim, disse Seu Manoel, com olhar de desdém. Se fosse pra mandar abaixar o som eles estavam aqui na hora, reclama baixinho a moça com cara de sono.

A confusão está armada. Todos falam e apontam para o céu. Um deles acredita que o prédio está torto:

_Repare bem, ele não está um pouco caído pra direita?
_Imagina, Seu Tenório... É feito de concreto, não entorta não.
_ Mas a terra é arenosa, não agüenta tanto peso.
_Será? Pode ser...

Afinal, o que está acontecendo aqui? Pergunta o policial cansado da lengalenga. Ninguém sabia, mas todos davam palpites ao mesmo tempo.

_Quem começou?

Seu Alberto aponta para o jovem que estava fumando um cigarro.

_Foi ele, foi ele quem começou. Quando eu cheguei, ele já estava aqui, olhando pro céu.

Foi você que começou toda esta confusão? Pergunta o policial ao rapaz. Eu não comecei confusão nenhuma, estava apenas olhando, acho bonito. Aquela nuvem não parece o mapa da Itália? Questiona, tranqüilo.

Ninguém vai se jogar? Interrompe Dona Amélia.

_Parece que não, Dona.

Ninguém perdoou. O cara é poeta e estava só admirando o céu... Perdoariam caso alguém morresse. Mas olhar para o céu à toa não pode. Ainda mais sendo poeta. “Deusôlivre”, disse Dona Amélia. E indignados, cada um voltou à sua vidinha de sempre.

Foi o assunto do mês.

sexta-feira, 5 de dezembro de 2008

O Cronista e o Poeta

Se a crônica é um refresco para o leitor, acostumado com o amargo das notícias do jornal, é um refresco ainda mais doce para o poeta que se mete a ser cronista. O cronista escreve rindo, mesmo quando indignado. Raramente se envolve, é apenas um espectador. E o leitor julga unicamente o seu trabalho e não a sua alma. Já o poeta é o protagonista. Sofre e se emociona, como se cada verso fosse arrancado de seu peito com garras de aço, sem nenhuma piedade.

Se o cronista está triste, ele inventa estórias para fazer o dia ficar mais divertido. Não tem compromisso com nada, nem com a verdade. Não tem pretensões literárias e nem, tão pouco, filosóficas. Não precisa de inspirações mágicas e nem de palavras esculpidas. Escreve e pronto, na hora que ele bem entender.

Com a poesia é diferente. O poeta é escravo da poesia. É ela que procura o poeta, é ela que chama pelo autor. Nem adianta sentar diante de uma folha de papel e querer escrever. A poesia tem a hora dela, é manhosa, não aceita imposições.

O cronista é aquele que escreve crônicas. Óbvio e simples assim. Um ofício como outro qualquer, com profissionais talentosos ou não. Mas o poeta não é meramente aquele que escreve versos. O ato de fazer poesia não faz de uma pessoa um poeta. Não é apenas a arte de escrever palavrinhas rimadas.

Ser poeta é um estado de espírito, uma dádiva e uma cruz, condição congênita e sem cura. O poeta não somente faz poesia, mas vive a poesia. Tudo que é belo transborda sobre ele, inundando seus olhos. E tudo que machuca, fere profundamente. Assim, de forma crônica e aguda.

***

Uma vez me contaram que Carlos Drummond de Andrade encontrou com Luiz Fernando Veríssimo em um evento literário. Drummond, cheio de entusiasmo, elogiou as crônicas de Veríssimo, e o cronista, que era fã do poeta, respondeu:
_ Obrigado. Mas você escreve ótimas crônicas, Drummond.
_ Mas, mesmo assim, continuo a ser poeta.
Deste modo, os dois grandes escritores perderam as palavras e num abraço de cumplicidade, se despediram, com uma pontinha de pena e inveja um do outro.

Na Contramão do Mundo

Estudos comprovam que 10% da população é formada por notívagos. Isto é, pessoas que trocam o dia pela noite e seus organismos “funcionam” melhor no período noturno. Não é uma questão de opção. É a natureza do indivíduo. O sujeito tem uma gripe, fica quase morto pela manhã, a tarde consegue ousar alguns passos e a noite ressuscita. É incrível, mas acontece. Os notívagos pensam melhor à noite, tem mais energia para exercícios físicos, para o trabalho, para o amor. O sol começa a se pôr e o tudo fica mais claro para os notívagos.

Eu faço parte desta minoria. E fazer parte de qualquer minoria, como vocês sabem, não é fácil. A primeira coisa é aprender a lidar com o preconceito. Se acordarmos ao meio-dia, mesmo dormindo apenas quatro ou cinco horas por noite, somos taxados de dorminhocos. Ninguém quer saber a que horas você foi dormir, nem mesmo aquele que dorme doze horas por noite. Dormir pela manhã é que o crime.

“Deus ajuda quem cedo madruga”. Mais esta para nos fazer pecadores e não merecedores da graça divina!

O Jô Soares, por exemplo, pode. Famosos e milionários podem. É excêntrico, é chique. Eu, pobre mortal, ou melhor, pobre e mortal, não posso.

O que me resta? Adaptar-me. Afinal, o mundo não foi feito para gente como eu. Desde pequenina tenho que seguir um ritmo que não faz parte de mim. Sete anos, horário de início da aula? 7h da madrugada. Dormia na classe, claro. Os professores, por insensibilidade ou por pura vaidade, me puniam. E os colegas riam de mim como se eu fosse o ET da turma, um sofrimento que criança nenhuma merece.

Mamãe nos colocava cedo na cama. Apagava a luz. Eu esperava uns minutos e fugia para ler no banheiro. Ali, caso ela me pegasse, não poderia bronquear muito, afinal, necessidades de banheiro são sempre permitidas.

Adulta, a coisa complicou ainda mais. Nada de leituras no banheiro e muito menos sonecas em horário de trabalho. Era um martírio fazer relatórios financeiros antes do meio-dia. Meu tempo de gerente de RH foi ainda mais torturante:
_ Dona Cecília, faltei ontem porque minha mãe bebeu e bateu no meu pai. Fomos tudo pra delegacia. Quer ver o B.O?
Ou pior:
_ Truxe o atestado. Eu sofro dos nervos e passei mal ontem. Tive que fazer uns inxames. É que eu tenho o sistema nervoso, sabe?

Ninguém que foi dormir às 4h ou 5h da manhã pode olhar com empatia para alguém que “sofre dos nervos” às 9h da manhã, não é mesmo?
Notívagos que vivem em cidades pequenas sofrem ainda mais. Não existe nada que funcione 24h. Banco? Supermercado? Academia? Esquece. O mundo pára às 17h50min e descansa às 18h. Ad infinitum.

Quanto às profissões, o preconceito é ainda maior. Se alguém diz que trabalha à noite, se for homem e honesto é guarda noturno. Se for um desconhecido, é traficante. Mas se for mulher, coitada... Logo pensam na profissão mais antiga do mundo...

A verdade é que a vida é inadequada para os notívagos, mesmo que a ciência tenha nos isentado de qualquer anormalidade. Estamos na contramão do mundo. Ou mudamos, ou colidimos. E na maioria das vezes, somos atropelados. Sem direito a indenizações e, se bobear, ainda temos que pagar por isto. Que eu saiba, seguro nenhum cobre estes pequenos estragos.

Lembro-me de um namorado romântico que tive, que quando fizemos dois meses de namoro, ele me mandou uma cesta de café da manhã. O entregador tocou mil vezes a campainha e nada. Desistiu e deixou um bilhete na caixa de correio pedindo para eu entrar em contato com a floricultura. Só achei o bilhete no final da tarde, quando eu fui sair. Busquei a minha cesta de flores murchas e queijos esbranquiçados. Mal pude aproveitar o presente e tão pouco o namorado, ofendido pelo meu suposto descaso. Expliquei, e agradeci plagiando Chico Buarque: “O nosso amor é tão bom, o horário é que nunca combina...”.

Dispenso qualquer surpresa matutina. Mas ainda sonho receber uma “cesta de madrugada”, lotada de flores e aperitivos: amendoins, salaminhos, mussarela em cubinhos(e não fatias enroladas), ovinhos de codorna, cervejas geladas e um Engov para o dia seguinte. Casava na hora.

“Fé Demais”


Apesar de ter tanta gente conhecida por lá, ninguém quer ir para o inferno. Mas os terrenos no céu devem valer uma fortuna! Pelo menos é o que me disseram.

Quanto custa um tijolo pra construir nossa eterna morada? Tem gente por aí que sabe o preço e ainda cobra por isso.

Vamos ser generosos! Gritam. Generosidade consigo mesmo, claro. De quem paga, pois acredita comprar a sua própria casa e de quem recebe, que constrói sua mansão aqui mesmo, no mundo dos mortais.

E se eu pagar tudo direitinho e ainda assim for para o inferno? Lá deve ter casinhas populares a preços razoáveis, ou não?

Talvez tenha alguma promoção do tipo “pague uma e leve duas”, muito útil para quem tem sogra.

Seja lá como for, o fato é que fico indignada quando alguns, que se auto-intitulam “representantes de Deus”, exploram a miséria intelectual das pessoas de boa fé.

Aquele que se permite falar “em nome de Deus” deveria saber muito bem o que está dizendo, não é mesmo?

É triste quando fico sabendo, ou vejo pela TV, o “bazar celestial”. A fé é medida pelo montante de dinheiro doado. Deus te dará em dobro! Dizem. Mas Deus não liga muito pra dinheiro, penso eu.


Enquanto os fiéis doam o dízimo, alguns representantes da fé dizimam os salários dos fiéis... Dinheiro e religião não se misturam. Templo não é empresa (ao menos não deveria ser). E ninguém mais se preocupa em expulsar os vendilhões.

O interessante é que estas pessoas, as “generosas”, não se preocupam em saber para onde vai o dinheiro doado. Talvez não se importem com os outros. Afinal, já fizeram a sua parte, acreditam.

Desconfie de qualquer um que queira barganhar em nome de Deus. Peça para ver a procuração para falar em nome Dele, com firma reconhecida em cartório. Sem isso é estelionato. Pode perguntar.

Quer ajudar? Que bom! Há tantos necessitados. Vá e faça você mesmo. Deus ficará muito mais feliz, tenha fé.

Padre Também Ri


Acho o riso sagrado. Se há coisa de Deus, o riso é a primeira delas. No entanto, as pessoas acham que rir é falta de respeito ou criancice. Tem louco que acha até que rir é pecado. Eu não, eu rio disto tudo. E não rio sozinha.

Padre Ruy foi um grande homem. Era belo, calvo, alto e sua pele, de tão negra, brilhava. Eu achava lindo aquele homem tão diferente de mim, chamar minha mãe de mãe e meu pai de pai. Ele os admirava tanto que pediu para assim chamá-los. Ganhei de imediato um irmão; era a única a ter um irmão mais velho que os pais.

Além da bondade e humildade que marcavam seu caráter, seu senso de humor nunca deixava de acompanhá-lo. Ria de dar gosto!

Eu deveria ter lá os meus três anos de idade quando lhe perguntei:
_Padre, por que o senhor é azul? Ele, rindo muito, responde:
_Cada um tem uma cor, Pituquinha. Anjo que é assim, como você, branquinha.
_Ah, padre... E santo? Santo tem cor?
_ Santo tem, pode ser qualquer uma. Mas só a alma que conta.

Entendi. E juntos brincamos de colorir, usando todas as cores.

Uma vez, ganhei de presente um “saco de risadas”, aquela maquininha que, quando apertamos o botão, dá gargalhadas escandalosas. O padre ficou doido com o brinquedo, ria mais alto que ele. Então, já tarde da noite, pegou o telefone e começou a passar trotes para seus paroquianos. Quando a pessoa atendia, ele apertava o botão perto do fone e, ele e o brinquedo, gargalhavam juntos ouvindo os piores xingamentos. Passou horas assim, até chorar de tanto rir.

Outra ocasião impossível de esquecer foi quando ele recebeu, em sua igreja, um colega português, também padre. Minha mãe tratou de preparar um almoço caprichado para depois da missa. Padre Ruy, animado com o banquete cantou: “ Você quer ingá, ingá tá aí. Você quer jiló? Jiló tá aí...”. Mas nem ingá e nem jiló faziam parte do cardápio. O prato principal era cuscuz. O padre português adorou. Comeu, repetiu e perguntou à minha mãe:
_Lygia, qual é o nome deste prato? Está divino!
_É cuscuz, padre.
O padre ficou em silêncio, pensou, depois respondeu baixinho:
_Nossa! Na minha terra, esta palavra no singular, é um nome feio...
Minha mãe, constrangida, responde:
_ Aqui também, padre...

Bastava o desconforto do diálogo pra se encerrar logo o assunto. Mas padre Ruy não se conteve. Colocou a mão na boca e soltou uma gargalhada abafada. Teve que sair da mesa de tanto que ria. Quando voltava à mesa, olhava pro cuscuz e disparava a rir de novo. Eu, ainda criança, tive orgulho do meu “irmão” e ri também.

Tão grande era seu coração, que o mesmo falhou. Hoje, Padre Ruy deve estar lá no céu, rindo com os anjinhos. Mas creio que não passa mais trotes.

A Caixa da Verdade

Num desses aplicativos do Orkut, em que se pode deixar suas opiniões anonimamente sobre uma pessoa, mesmo para aquelas que não conhecemos, vejo um feinho com cara de simpático e mando essa:

_Você tá bonito!
_Quem é?
_A Silvia.
_Que Silvia?
_A Silvia, pô!
_Silvia de quê?
_A Silvia, da lanchonete!
_Que lanchonete?
_Tá zoando, Gelson?
_A lanchonete da esquina, oras...
_Mas que dia que eu fui aí?
_ Eu que vou saber, Gelson!
_Que idade você tem?
_Endoidou?
_Por quê?
_Ué... Perguntando minha idade. Até parece que vc não sabe!

Um silêncio profundo.

_Ah! Você é irmã do Rogério?
_Lógico! Quem você pensou que era?
Outro silêncio e o tal de Gelson diz:
_Você achou mesmo que estou bonito?
_Claro, Ge...
_Onde você me viu?
_Na lanchonete...
_Ah...
_Sempre gostei de você...
_ Mas eu nunca reparei...
_Sou tímida, Gelson
_ Posso passar aí amanhã? Tô querendo mesmo ver o Rogério...
_Vem. Te espero às 19h
_Ok. Beijos, linda!
_Beijos, querido...

Horas depois ainda provoco:

_ Fiquei sabendo que a Silvia tá gostando de você...
_ Quem é? Que Silvia? A irmã do Rogério?

Hum...Esta Silvia vai entrar bem amanhã.

Dona Gerundina

Dona Gerundina era minha professora. Penso que professores são como atores ou políticos, profissões em que se usam a oralidade para satisfazer egos insuflados. Exceções à parte, alguns são boderlines, outros são histriônicos mesmo. Mas dona Gerundina era única. Sem classificação. Não que fosse totalmente desclassificada, mas era sem precedentes.

Baixinha, gordinha, mal cabia dentro do orgulho que carregava. Que fardo!

Era economista, mas sonhava em ser atriz. Faltava-lhe talento para qualquer uma das duas profissões e frustrada ensinava o que não sabia A sala de aula era seu palco. O único que lhe suportava. E nós, alunos, expectadores de um drama com conteúdo impróprio para maiores de 12 anos.

Não sei como conseguiu ser professora universitária. Talvez fosse prima do diretor, talvez sua amante. Não sei. Sei apenas que era segredo.

Às vezes, eu me divertia em suas aulas, ria mesmo. Não que ela fosse engraçada, dona Gerundina estava sempre mal humorada, mas era curioso assistir tamanha empáfia se espremendo num cérebro tão curto. Andava de um lado para o outro da sala, sempre no salto alto, mesmo descalça. Quando sentava sobre a mesa, para melhor encarar os alunos, gerava uma tensão em todos, a mesa se curvava com o seu peso, dando a impressão de que viria abaixo. Coisa, que confesso, seria ainda mais divertido.

Adorava gerúndios - daí seu apelido carinhoso – e os usava sem economia, achava chique.

A danada era exigente. Corrigia as provas sem pena. Mudava as ordens das frases, acrescentava palavras e deixava recados do tipo: Precisa estar estudando mais!

Era péssima, mas não sabia. Ninguém avisou a pobrezinha que espanador não é pavão.
Aluno, se não for resignado, repete de ano. Ai de quem se metesse com dona Gerundina!
Ontem, ela se superou. E eu, por pouco, não regredi:
_Vocês vão estar concluindo o trabalho e deverão estar entregando pra mim corrigir até sexta-feira.
Diante de tamanha heresia ao português, ironizei:
_Professora, não entendi...

Ela me olhou de um jeito, que juro que pensava: você é burra mesmo! Mas se conteve e me respondeu com todos os verbos e olhares de superioridade que ela conhecia.

Agradeci a tão empolada explicação e fui-me embora, levando meu olhar, seco de verbos e esperanças.

As Máquinas Que Aproximam o Amor


Dizem que estresse não se tem em um só dia e sim que é um acúmulo de pequenos aborrecimentos ao longo do tempo. Pode ser. Talvez não tenha notado os outros, justamente pelo fato de serem pequenos. A realidade é que vivo, atualmente, uma paixão arrebatadora e isso, apesar de fazer com que o coração fique bobo e a alma mais leve, gera um certo nível de ansiedade. Porém, se este amor está distante e o nosso maior instrumento de comunicação é cortado, a ansiedade natural passa a ser stress.

Oitocentos quilômetros nos separam e minha vida amorosa está intimamente ligada e dependente da internet. MSN, Orkut, e-mail, webcam, nos aproximam e amenizam a saudade. Quem tem amor distante, nos dias de hoje, sabe do que estou falando...

Acho tudo isso esquisito. Mas procuro aproveitar o que a tecnologia pode me oferecer, mesmo nos assuntos em que ela, teoricamente, não poderia se meter.

Estou eu, com meu amor, no MSN trocando juras e saudades e cai a conexão... Deixo-o com uma frase capciosa interrompida involuntariamente. Faço o que posso, o que sei e nada, é só uma máquina, morta agora. Tento algum contato humano, ligo para provedores, assistências técnicas e o que ouço? Máquinas. Gravações estúpidas me fazendo estúpida também. Passo horas apertando a tecla dois, cinco, três e aguardando... Eis que surge um humano (ao menos achei que era), pede todos meus números, telefone, DDD, RG, CPF, pede outras identificações minhas, endereço, modem, Windows, PC.

Com minha paciência quase sobre-humana se esgotando, descubro que é apenas o começo da saga do restauro na conexão. Liga e desliga o PC, clica ali, aciona aqui, muda senha, tenta de novo – e meu amor achando que fora deliberadamente abandonado – e nada. Erro de conexão. Simples assim.

Imagino que você também passou por isso e sabe que não é nada agradável, mas não foi possível “estar providenciando” uma paciência maior para mim.

_ A senhora(não gostei deste “senhora”) pode estar desligando seu computador. Vai estar esperando dois minutos pra estar ligando novamente... Caso o problema ainda não esteja resolvido, a senhora(de novo?) pode estar ligando pra nossa central de diagnóstico avançado que o pessoal vai estar providenciando uma solução (afe!).
_Mas eu tenho urgência! Preciso que funcione logo.
_Estaremos providenciando, minha senhora(agora, além de tudo, ainda sou senhora do atendente).

Entendeu? Uma chatice, né? Para evitar horas de ansiedade, saudade e gerundismo, só mesmo tendo o meu amor por perto.
Acho que era o que o rapaz da Telefonica me diria, caso ele estivesse programado pra isso.

Cada Um Com Seus Problemas

Eu deveria estar triste, mas não tenho vocação para dramas.
Reconheço que a vida é dura, as pessoas são difíceis e a crise é grande. Mas quantas vezes nos acovardamos? Quantas vezes por medo do fracasso, de ouvir um não, de sofrer, nós desistimos ou nem se quer tentamos? Se alguém foi injusto com você é bem provável que você tenha sido fraco. Permitimos ser magoados, não nos defendemos e vemos apenas a culpa do outro.

É tão mais cômodo e seguro ficar no nosso canto, lamentando, do que se expor e arriscar. Ir à luta dá trabalho, é perigoso. Corremos o risco de descobrir que somos nós que estamos errando e não o mundo que é injusto.

Podemos andar, mas na ânsia de voar, ficamos paralisados lamentando por não termos nascidos com asas.

Não tenho mais paciência com os “coitadinhos” e nem tão pouco com super-heróis. Não é mais fácil ser simplesmente humano?

Ontem encontrei uma senhora, velha conhecida da família:
_ Olá! Tudo bem, Dona Lurdes?
_Mais ou menos...

Não é mais ou menos. É menos. Menos simpatia, menos vontade de vê-la novamente, menos paciência pra gente chata.

É um hábito enraizado. Para estas pessoas nunca está tudo bem. Claro, “tudo” nunca está mesmo. Mas e daí? Quem quer saber os detalhes infelizes da nossa vida?

Talvez interesse mais o que fazemos para mudar estas pequenas infelicidades do que o que elas são de fato.

Histórias de superação são incríveis. Passam até no fantástico. Mas gente chata, que só reclama, não faz sucesso nem na fila do SUS.
_ Menina do céu! Estou com uma dor tão forte nas costas!
_ E eu, então? A minha é bem pior.
_ Mas meu colesterol é mais alto. Já passou dos trezentos.
_Tá bom, ganhou. Um a zero.

Não. Não foi um a zero, foi empate. Mas perder legitima o sofrimento da vítima.

Para o sofredor patológico, não basta estar triste. Ele tem que fazer com que todos que estão à sua volta compartilhem da sua dor. O melhor, meu amigo, é se afastar de gente assim.

Carregue no colo, se preciso for, o amigo que passa por um momento difícil. Mas mude de quarteirão se um pessimista crônico quiser destruir o seu dia.

Como eles mesmos diriam: Ninguém merece.

quinta-feira, 4 de dezembro de 2008

SAC - Serviço de Atendimento ao Cliente

Caro Cupido,Venho através desta registrar meu profundo desagrado com os serviços prestados à mim. A encomenda que pedi não era esta. A que me enviou veio danificada, com diversas avarias e cheirando a pó.
Quero devolver a mercadoria e peço que me reembolse imediatamente com um artigo melhor.
Sem mais para o momento, agradeço.

quarta-feira, 3 de dezembro de 2008

Breve Manual da Separação

Capítulo 1 – O início após o fim

O primeiro dia – É a hora da faxina. Jogue fora tudo que é dele, e não tenha dó. Se tiver raiva suficiente, queime peça por peça - alivia. Não atenda telefone, não saia de casa e chore. Chore até ficar inchada, roxa e exausta. Pronto! Agora você consegue dormir.O segundo dia - Primeiro vá a um salão de beleza e depois compre roupas novas. Se não tiver dinheiro, empreste, dê cheque sem fundo, em último caso, roube. Mas saia pra gastar e fique linda.Ps. Hoje pode chorar mais um pouco, mas só de noite.Do terceiro dia em diante – Não derrame mais uma lágrima se quer e jamais cite o nome do seu ex. Use “falecido”, “verme”, “x” ou qualquer coisa assim. Tome muito cuidado com os domingos. Domingo demora e a lembrança dele, certamente, virá assombrar sua casa. Tome um banho de sal grosso e se alegre por não precisar assistir futebol e nem comer aquela pipoca queimada que ele faz. Poderá dormir o dia todo, visitar aqueles amigos que ele nunca gostou, escrever, ler aquele livro que você - por companheirismo - não leu. Enfim, fazer o que você bem entender. Aproveite.


Capítulo 2 - Saindo sozinha


Após semanas, meses e até anos saindo com a mesma pessoa, agora você está só. A primeira coisa a fazer é ligar pra sua amiga mais fofoqueira. Ela saberá quem também está disponível. Escolha uma amiga bem animada e que não seja mais interessante que você, convide-a pra sair. Se possível, tenha sempre um amigo gay por perto, ajuda. Evite lugares para casais e filmes românticos. Nem passe perto dos lugares que seu ex freqüentava, mas se você mora em uma cidade pequena, vai ter que correr este risco. Vá assim mesmo, mas capriche no salto e sorria. Sorria mesmo sem achar graça. Faça novos amigos e não beba demais, provavelmente é você quem voltará dirigindo.


Capítulo 3 – Os curiosos de plantão


Será inevitável a pergunta: cadê fulano?Se a separação foi amigável, diga que não estão mais juntos, que são apenas amigos e puxe rapidamente um outro assunto polêmico, por exemplo, a separação de um outro casal que não esteja presente. Mas se você estiver puta com o seu ex, diga simplesmente que ele morreu. E, por favor, não dê explicações. Jamais se comova com os olhares de pena.


Capítulo 4 – Os novos pretendentes


Sempre que uma mulher se separa, os homens têm um súbito interesse por ela. Não sei se é por curiosidade, se eles acreditam que você está carente, portanto mais vulnerável ou se é só pra provar que é melhor que o amigo, mas o fato é que eles estarão, no mínimo, mais afetuosos.Cuidado. Deixe ser consolada apenas por aqueles mal intencionados.Os bem intencionados, provavelmente, ficarão loucos por você, já que você ainda não está emocionalmente disponível e homens adoram quando uma mulher não está nem aí pra eles.Encontro às escuras são perigosos. Não caia naquele papo de “eu tenho um amigo pra te apresentar que é a sua cara...” Na maioria das vezes ele não tem absolutamente nada a ver com você. Quanto ao orkut, msn e afins, é bom lembrar que imagem não tem cheiro e que, como diria Caetano, de perto ninguém é normal.Aproveite para se curtir e conhecer pessoas interessantes.E não confunda hormônios em ebulição com amor.


Capítulo 5 – Dicas finais


. Cuidado com a mistura de bebida e celular

. Faça festas

. Divirta-se

. Jamais saia de casa sem batom

. Não fale mal do seu ex e evite que as pessoas falem dele(bem ou mal)

. Cuidado com recaídas: “entre dois males, escolha aquele que ainda não experimentou”

· E acima de tudo, não ligue a mínima para manuais desse tipo.

terça-feira, 2 de dezembro de 2008

Demora muito?

As previsões astrais para dezembro prometem um mês inesquecível. Quem é geminiano, pode contar com “entrada inesperada de dinheiro, boas surpresas no amor, viagens e intensa atividade sexual.” Processarei o site de horóscopo, já estamos no dia 2 e nada disto aconteceu.
*Ainda não ganhei na loteria.
*O Gianecchini não me ligou.
*O Chico Buarque não mudou pra casa ao lado.
*O lugar mais longe que fui foi no quintal da minha casa.
*E o resto, bom, o resto o que é mesmo?

Essas Crianças...

Enquanto esperava a minha amiga sair do banho pra irmos à uma festa, fiquei conversando com o seu filho de 7 anos. Tentei puxar assunto, perguntei da escola, videogame e coisa e tal...Mas ele não estava muito interessado e ficamos novamente em silêncio. Eu, pra quebrar o gelo, arrisquei:
_Você sabe quem está grávida? A tia Márcia.
_Ah é?
_É sim, de 2 meses.
_Ela fez sexo com quem?

Ai...

Os Náufragos

A ventania se assemelhava ao sopro de um deus devastador, fazendo uivar coqueiros e calar animais.

Enroscados uns aos outros, sob a falsa proteção de uma árvore, estavam os três náufragos: Mauro Brando, Rosely Cristina e Clóvis Cardoso.
Eram eles os únicos sobreviventes do naufrágio do “Efigênio D”, um luxuoso navio que se destinava à Umbandia, costa oeste da África.

Cada um embarcara com um propósito diferente: Mauro brando, na verdade, Waldemauro Pereira dos Santos, um ator em pleno declínio físico e moral, 59 anos e 83 quilos distribuídos em 1, 67m de altura, fora convidado para fazer uma ponta em um filme, cujo cachê era bem menor do que suas despesas de viagem.

Há anos, Mauro bebia e jogava, perdendo quase toda a generosa herança que havia recebido. Era casado com uma ex-atriz de filme pornô, chamada Rosely Cristina.
Rosely Cristina era uma destas mulheres ecológicas, que se assemelhava a uma espécie de pássaro em extinção. Sua personalidade era fortíssima, mandava e desmandava em Waldemauro e o pobre fazia tudo por ela.

Clóvis Cardoso, 32 anos, magro como um relógio ao meio-dia e meia, professor de sociologia e como tal, míope de tudo. Durante a viagem vivia contando suas glórias e aventuras como caçador e expedicionário em selvas, florestas e desertos.

Os três náufragos não tinham a menor idéia de onde poderiam estar, já que o navio vagava a esmo por vários dias, desgovernado em meio à tempestade.
Noite se fez. Dormiram abraçados, exaustos.

O dia amanheceu negro, mas sem chuva. Rosely Cristina obrigou Waldemauro a sair em busca de água e comida. Não foi difícil, havia coqueiros por toda parte. E coco também foi o almoço e o jantar.

Clóvis não dissera nem uma palavra por todo o dia e a noite, mas Mauro e Rosely sentiam-se amparados apenas com a sua presença, confiavam em sua perícia.

Na manhã seguinte Rosely e Mauro acordaram com os berros de Clóvis. As cascas dos cocos atraíram centenas de formigas e muitas delas passeavam pelo corpo estreito de Clóvis. Desta forma os outros dois náufragos descobriram a fraude de Clovis. Como pode tão experiente explorador ter medo de formigas?
Clóvis chorando em convulsões confessou, enfim, que havia feito apenas um curso de sobrevivência na selva... Por correspondência.
Rosely Cristina gritava :
_ Covarde! Mentiroso!
Waldemauro consolava Clóvis:
_ Eu entendo, eu entendo, acontece...
Mas por dentro se contorcia de raiva, pensando na pesca e na caça que perdera.

Após se acalmarem, conversaram sobre iguarias sofisticadas, camas macias, ar refrigerado e cervejas geladas. Rosely os trouxe de volta à realidade, pensando em um modo de sobreviverem, de saírem dali. Mauro aventou a hipótese de haver alguma civilização por perto e serem salvos, mas Clóvis fez um longo relato sobre as tribos canibais, seus costumes e seus rituais. Neste momento escutaram ao longe o soar de tambores. Tum-tum, tum-tum, tum-tum...
Rosely imediatamente pôs-se a dançar, Mauro e Clóvis tentaram se esconder, mas como o som vinha de muito longe, logo se aquietaram.
Não estamos sós, concluíram. E adormeceram aflitos, após estabelecerem a divisão de tarefas para o dia seguinte. Waldemauro tentaria pescar o almoço, Clóvis construiria um abrigo e como os dois se acovardaram, Rosely iria procurar alguém e ir em busca de socorro.

O dia amanheceu. Waldemauro saiu e voltou todo orgulho com os dois siris que conseguira, Clóvis improvisara uma cabana estilo “forte-apache” americano. Rosely Cristina não voltou.

Waldemauro chorou por cinco dias seguidos. Depois se conformou com o fato de sua mulher ter virado refeição de canibal.

Dias e noites se passaram, nenhum dos dois tinha coragem suficiente de explorar a terra onde estavam. E toda noite eram atormentados pelo som dos tambores.

Viram passar, sem que soubessem, quase um ano até aparecer alguém.
_ E aí, mano? Tem fogo?
Clovis e mauro se olharam atônitos e catatônicos.
O garoto vira pra namorada e diz:
_ Estes aí estão doidões...
Clóvis se joga aos pés do menino e em prantos o bombardeia com perguntas:
_Quem é você? Por que fala a minha língua? Onde estamos?

_Tá louco, véio? Pirô? Que bagulho é este que tu usou?
O menino volta-se para a namorada e fala com um jeito desapontado:
_Vamo s’imbora daqui. Entramo numa roubada, me garantiram que esta praia era deserta e só tem maluco!

Waldemauro interrompeu o garoto e explicou o caso. O casal não acreditou, mas revelaram aos dois náufragos que estavam na praia do Coqueiral, Rio de janeiro, próximo a concentração da escola de samba “Cidade Maravilhosa”.

Tempos se passaram. Waldemauro desistiu da carreira de ator e agora se dedica a arte culinária. Clóvis escreveu um livro de ficção cujo título é: “Os Náufragos”. Rosely Cristina há dois anos é madrinha da bateria da “Cidade Maravilhosa”.