terça-feira, 16 de dezembro de 2008

Proibido Olhar Para o Céu

Na principal rua da cidade, um cidadão olha para o céu. O que tem por lá? Uma árvore de folhas miúdas, um edifício alto, um passarinho solitário e o que mais? Nada vejo.

Seu Alberto chega pra espiar. Também não vê nada de diferente. Seu Manoel, da padaria, aparece, cheirando a bolo. A moça que vende cartões da Zona Azul, esbaforida pergunta ao rapaz que observa o céu:

_ Aconteceu alguma coisa?

Ainda não sei, responde ele (o que matou foi este “ainda”).

Alguém vai se jogar? Perguntou Dona Amélia.

Está pegando fogo? Parece que está saindo fumaça do nono andar, arriscou o menino de bicicleta. Onde? Onde? Ouve-se o coro dos curiosos.

Pára mais gente. Dona Amélia liga pra polícia. Parece que alguém vai se jogar, diz ela ao delegado.

O pessoal da imprensa chega imediatamente. Meia hora depois aparece a polícia. Não tinha ninguém disponível na delegacia... É sempre assim, disse Seu Manoel, com olhar de desdém. Se fosse pra mandar abaixar o som eles estavam aqui na hora, reclama baixinho a moça com cara de sono.

A confusão está armada. Todos falam e apontam para o céu. Um deles acredita que o prédio está torto:

_Repare bem, ele não está um pouco caído pra direita?
_Imagina, Seu Tenório... É feito de concreto, não entorta não.
_ Mas a terra é arenosa, não agüenta tanto peso.
_Será? Pode ser...

Afinal, o que está acontecendo aqui? Pergunta o policial cansado da lengalenga. Ninguém sabia, mas todos davam palpites ao mesmo tempo.

_Quem começou?

Seu Alberto aponta para o jovem que estava fumando um cigarro.

_Foi ele, foi ele quem começou. Quando eu cheguei, ele já estava aqui, olhando pro céu.

Foi você que começou toda esta confusão? Pergunta o policial ao rapaz. Eu não comecei confusão nenhuma, estava apenas olhando, acho bonito. Aquela nuvem não parece o mapa da Itália? Questiona, tranqüilo.

Ninguém vai se jogar? Interrompe Dona Amélia.

_Parece que não, Dona.

Ninguém perdoou. O cara é poeta e estava só admirando o céu... Perdoariam caso alguém morresse. Mas olhar para o céu à toa não pode. Ainda mais sendo poeta. “Deusôlivre”, disse Dona Amélia. E indignados, cada um voltou à sua vidinha de sempre.

Foi o assunto do mês.

2 comentários:

  1. Este comentário foi removido pelo autor.

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  2. Putz, Ci. Muito bom! Além de cronista, agora contista...vai dominar todas as artes hein?
    Beijão!
    Ps: a postagem anterior tinha um errinho....hehehehe!

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