sexta-feira, 5 de dezembro de 2008

Padre Também Ri


Acho o riso sagrado. Se há coisa de Deus, o riso é a primeira delas. No entanto, as pessoas acham que rir é falta de respeito ou criancice. Tem louco que acha até que rir é pecado. Eu não, eu rio disto tudo. E não rio sozinha.

Padre Ruy foi um grande homem. Era belo, calvo, alto e sua pele, de tão negra, brilhava. Eu achava lindo aquele homem tão diferente de mim, chamar minha mãe de mãe e meu pai de pai. Ele os admirava tanto que pediu para assim chamá-los. Ganhei de imediato um irmão; era a única a ter um irmão mais velho que os pais.

Além da bondade e humildade que marcavam seu caráter, seu senso de humor nunca deixava de acompanhá-lo. Ria de dar gosto!

Eu deveria ter lá os meus três anos de idade quando lhe perguntei:
_Padre, por que o senhor é azul? Ele, rindo muito, responde:
_Cada um tem uma cor, Pituquinha. Anjo que é assim, como você, branquinha.
_Ah, padre... E santo? Santo tem cor?
_ Santo tem, pode ser qualquer uma. Mas só a alma que conta.

Entendi. E juntos brincamos de colorir, usando todas as cores.

Uma vez, ganhei de presente um “saco de risadas”, aquela maquininha que, quando apertamos o botão, dá gargalhadas escandalosas. O padre ficou doido com o brinquedo, ria mais alto que ele. Então, já tarde da noite, pegou o telefone e começou a passar trotes para seus paroquianos. Quando a pessoa atendia, ele apertava o botão perto do fone e, ele e o brinquedo, gargalhavam juntos ouvindo os piores xingamentos. Passou horas assim, até chorar de tanto rir.

Outra ocasião impossível de esquecer foi quando ele recebeu, em sua igreja, um colega português, também padre. Minha mãe tratou de preparar um almoço caprichado para depois da missa. Padre Ruy, animado com o banquete cantou: “ Você quer ingá, ingá tá aí. Você quer jiló? Jiló tá aí...”. Mas nem ingá e nem jiló faziam parte do cardápio. O prato principal era cuscuz. O padre português adorou. Comeu, repetiu e perguntou à minha mãe:
_Lygia, qual é o nome deste prato? Está divino!
_É cuscuz, padre.
O padre ficou em silêncio, pensou, depois respondeu baixinho:
_Nossa! Na minha terra, esta palavra no singular, é um nome feio...
Minha mãe, constrangida, responde:
_ Aqui também, padre...

Bastava o desconforto do diálogo pra se encerrar logo o assunto. Mas padre Ruy não se conteve. Colocou a mão na boca e soltou uma gargalhada abafada. Teve que sair da mesa de tanto que ria. Quando voltava à mesa, olhava pro cuscuz e disparava a rir de novo. Eu, ainda criança, tive orgulho do meu “irmão” e ri também.

Tão grande era seu coração, que o mesmo falhou. Hoje, Padre Ruy deve estar lá no céu, rindo com os anjinhos. Mas creio que não passa mais trotes.

0 comentários:

Postar um comentário