Se a crônica é um refresco para o leitor, acostumado com o amargo das notícias do jornal, é um refresco ainda mais doce para o poeta que se mete a ser cronista. O cronista escreve rindo, mesmo quando indignado. Raramente se envolve, é apenas um espectador. E o leitor julga unicamente o seu trabalho e não a sua alma. Já o poeta é o protagonista. Sofre e se emociona, como se cada verso fosse arrancado de seu peito com garras de aço, sem nenhuma piedade.
Se o cronista está triste, ele inventa estórias para fazer o dia ficar mais divertido. Não tem compromisso com nada, nem com a verdade. Não tem pretensões literárias e nem, tão pouco, filosóficas. Não precisa de inspirações mágicas e nem de palavras esculpidas. Escreve e pronto, na hora que ele bem entender.
Com a poesia é diferente. O poeta é escravo da poesia. É ela que procura o poeta, é ela que chama pelo autor. Nem adianta sentar diante de uma folha de papel e querer escrever. A poesia tem a hora dela, é manhosa, não aceita imposições.
O cronista é aquele que escreve crônicas. Óbvio e simples assim. Um ofício como outro qualquer, com profissionais talentosos ou não. Mas o poeta não é meramente aquele que escreve versos. O ato de fazer poesia não faz de uma pessoa um poeta. Não é apenas a arte de escrever palavrinhas rimadas.
Ser poeta é um estado de espírito, uma dádiva e uma cruz, condição congênita e sem cura. O poeta não somente faz poesia, mas vive a poesia. Tudo que é belo transborda sobre ele, inundando seus olhos. E tudo que machuca, fere profundamente. Assim, de forma crônica e aguda.
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Uma vez me contaram que Carlos Drummond de Andrade encontrou com Luiz Fernando Veríssimo em um evento literário. Drummond, cheio de entusiasmo, elogiou as crônicas de Veríssimo, e o cronista, que era fã do poeta, respondeu:
_ Obrigado. Mas você escreve ótimas crônicas, Drummond.
_ Mas, mesmo assim, continuo a ser poeta.
_ Mas, mesmo assim, continuo a ser poeta.
Deste modo, os dois grandes escritores perderam as palavras e num abraço de cumplicidade, se despediram, com uma pontinha de pena e inveja um do outro.
Queridamiga... Que belíssimo texto!
ResponderExcluirFaz crônica tão bem quanto faz poesia.
Sou tua fã de carteirinha e bandeira.
Beijos poéticos.
Não precisa de inspirações mágicas e nem de palavras esculpidas.
ResponderExcluirsimples assim..
adorando tudo!
beijo
Cacá.
Cecília adorei O Cronista e o Poeta. De modo claro, objetivo, com profundidade e construções poéticas, você deu à crônica a vivência do poeta e do cronista. Parabéns. Adhemar Módena
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