sexta-feira, 5 de dezembro de 2008

Dona Gerundina

Dona Gerundina era minha professora. Penso que professores são como atores ou políticos, profissões em que se usam a oralidade para satisfazer egos insuflados. Exceções à parte, alguns são boderlines, outros são histriônicos mesmo. Mas dona Gerundina era única. Sem classificação. Não que fosse totalmente desclassificada, mas era sem precedentes.

Baixinha, gordinha, mal cabia dentro do orgulho que carregava. Que fardo!

Era economista, mas sonhava em ser atriz. Faltava-lhe talento para qualquer uma das duas profissões e frustrada ensinava o que não sabia A sala de aula era seu palco. O único que lhe suportava. E nós, alunos, expectadores de um drama com conteúdo impróprio para maiores de 12 anos.

Não sei como conseguiu ser professora universitária. Talvez fosse prima do diretor, talvez sua amante. Não sei. Sei apenas que era segredo.

Às vezes, eu me divertia em suas aulas, ria mesmo. Não que ela fosse engraçada, dona Gerundina estava sempre mal humorada, mas era curioso assistir tamanha empáfia se espremendo num cérebro tão curto. Andava de um lado para o outro da sala, sempre no salto alto, mesmo descalça. Quando sentava sobre a mesa, para melhor encarar os alunos, gerava uma tensão em todos, a mesa se curvava com o seu peso, dando a impressão de que viria abaixo. Coisa, que confesso, seria ainda mais divertido.

Adorava gerúndios - daí seu apelido carinhoso – e os usava sem economia, achava chique.

A danada era exigente. Corrigia as provas sem pena. Mudava as ordens das frases, acrescentava palavras e deixava recados do tipo: Precisa estar estudando mais!

Era péssima, mas não sabia. Ninguém avisou a pobrezinha que espanador não é pavão.
Aluno, se não for resignado, repete de ano. Ai de quem se metesse com dona Gerundina!
Ontem, ela se superou. E eu, por pouco, não regredi:
_Vocês vão estar concluindo o trabalho e deverão estar entregando pra mim corrigir até sexta-feira.
Diante de tamanha heresia ao português, ironizei:
_Professora, não entendi...

Ela me olhou de um jeito, que juro que pensava: você é burra mesmo! Mas se conteve e me respondeu com todos os verbos e olhares de superioridade que ela conhecia.

Agradeci a tão empolada explicação e fui-me embora, levando meu olhar, seco de verbos e esperanças.

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