Estudos comprovam que 10% da população é formada por notívagos. Isto é, pessoas que trocam o dia pela noite e seus organismos “funcionam” melhor no período noturno. Não é uma questão de opção. É a natureza do indivíduo. O sujeito tem uma gripe, fica quase morto pela manhã, a tarde consegue ousar alguns passos e a noite ressuscita. É incrível, mas acontece. Os notívagos pensam melhor à noite, tem mais energia para exercícios físicos, para o trabalho, para o amor. O sol começa a se pôr e o tudo fica mais claro para os notívagos.
Eu faço parte desta minoria. E fazer parte de qualquer minoria, como vocês sabem, não é fácil. A primeira coisa é aprender a lidar com o preconceito. Se acordarmos ao meio-dia, mesmo dormindo apenas quatro ou cinco horas por noite, somos taxados de dorminhocos. Ninguém quer saber a que horas você foi dormir, nem mesmo aquele que dorme doze horas por noite. Dormir pela manhã é que o crime.
“Deus ajuda quem cedo madruga”. Mais esta para nos fazer pecadores e não merecedores da graça divina!
O Jô Soares, por exemplo, pode. Famosos e milionários podem. É excêntrico, é chique. Eu, pobre mortal, ou melhor, pobre e mortal, não posso.
O que me resta? Adaptar-me. Afinal, o mundo não foi feito para gente como eu. Desde pequenina tenho que seguir um ritmo que não faz parte de mim. Sete anos, horário de início da aula? 7h da madrugada. Dormia na classe, claro. Os professores, por insensibilidade ou por pura vaidade, me puniam. E os colegas riam de mim como se eu fosse o ET da turma, um sofrimento que criança nenhuma merece.
Mamãe nos colocava cedo na cama. Apagava a luz. Eu esperava uns minutos e fugia para ler no banheiro. Ali, caso ela me pegasse, não poderia bronquear muito, afinal, necessidades de banheiro são sempre permitidas.
Adulta, a coisa complicou ainda mais. Nada de leituras no banheiro e muito menos sonecas em horário de trabalho. Era um martírio fazer relatórios financeiros antes do meio-dia. Meu tempo de gerente de RH foi ainda mais torturante:
_ Dona Cecília, faltei ontem porque minha mãe bebeu e bateu no meu pai. Fomos tudo pra delegacia. Quer ver o B.O?
Ou pior:
_ Truxe o atestado. Eu sofro dos nervos e passei mal ontem. Tive que fazer uns inxames. É que eu tenho o sistema nervoso, sabe?
Ninguém que foi dormir às 4h ou 5h da manhã pode olhar com empatia para alguém que “sofre dos nervos” às 9h da manhã, não é mesmo?
Notívagos que vivem em cidades pequenas sofrem ainda mais. Não existe nada que funcione 24h. Banco? Supermercado? Academia? Esquece. O mundo pára às 17h50min e descansa às 18h. Ad infinitum.
Quanto às profissões, o preconceito é ainda maior. Se alguém diz que trabalha à noite, se for homem e honesto é guarda noturno. Se for um desconhecido, é traficante. Mas se for mulher, coitada... Logo pensam na profissão mais antiga do mundo...
A verdade é que a vida é inadequada para os notívagos, mesmo que a ciência tenha nos isentado de qualquer anormalidade. Estamos na contramão do mundo. Ou mudamos, ou colidimos. E na maioria das vezes, somos atropelados. Sem direito a indenizações e, se bobear, ainda temos que pagar por isto. Que eu saiba, seguro nenhum cobre estes pequenos estragos.
Lembro-me de um namorado romântico que tive, que quando fizemos dois meses de namoro, ele me mandou uma cesta de café da manhã. O entregador tocou mil vezes a campainha e nada. Desistiu e deixou um bilhete na caixa de correio pedindo para eu entrar em contato com a floricultura. Só achei o bilhete no final da tarde, quando eu fui sair. Busquei a minha cesta de flores murchas e queijos esbranquiçados. Mal pude aproveitar o presente e tão pouco o namorado, ofendido pelo meu suposto descaso. Expliquei, e agradeci plagiando Chico Buarque: “O nosso amor é tão bom, o horário é que nunca combina...”.
Dispenso qualquer surpresa matutina. Mas ainda sonho receber uma “cesta de madrugada”, lotada de flores e aperitivos: amendoins, salaminhos, mussarela em cubinhos(e não fatias enroladas), ovinhos de codorna, cervejas geladas e um Engov para o dia seguinte. Casava na hora.
Pois é, vivemos em um mundo onde dizem respeitar as diferenças, onde na verdade se deve respeitar desigualmente os desiguais..
ResponderExcluirnão sendo assim, vc já definiu quase todas as 'ocasiões'..
:)
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adorei a cesta de café da manhã. rs
Cacá.